Futura Time Machine: Porto. Uma viagem até 2050

Pela Fundação Futura

 
 
 
 

Peça a qualquer pessoa para imaginar o futuro e a sua mente enche-se de carros voadores e torres de vidro. Cidades que surgem já totalmente formadas e com um ar ligeiramente estéril.

Mas o verdadeiro futuro é mais interessante. 

Herda as ruas que já temos, mas também as pessoas que vivem entre elas: aquilo que concordamos que vale a pena manter, aquilo que defendemos que precisa de mudar e as conversas que surgem no meio disso tudo.

No dia 10 de julho, cerca de uma centena de pessoas que vivem, trabalham, estudam e, acima de tudo, amam o Porto reuniram-se na Futura Time Machine para imaginar a sua amada cidade em 2050.

Porque amar um lugar não significa deixá-lo inalterado. Às vezes, significa questionar o que ele poderá vir a ser.

 

Imaginar 2050 não significa fugir de 2026. Significa olhar para o presente de uma forma diferente.

O trabalho começou nessa manhã com o Futura Fellows, um grupo de mulheres portuguesas, e a equipa de Transformative Times. Juntas, aprenderam a questionar pressupostos, a explorar futuros plausíveis e, em seguida, a trabalhar de forma retroativa para os concretizar.

À tarde, as portas abriram-se para a cidade:

Como seria um Porto mais verde e mais azul em 2050 — e o que teria de começar a mudar agora para lá chegarmos?

Então, as luzes apagaram-se.

Uma rajada de ruído estático.

«Fala o vosso comandante…»

O som do lançamento de um foguetão ecoou pelo salão.

O voo FTM 001 já tinha partido. Destino: 2050.

Primeira paragem: uma autoestrada.


 

Um mapa pode ocultar a verdade sobre as viagens.

Dois bairros podem ficar a nove minutos de distância um do outro e, mesmo assim, a viagem pode demorar uma hora — não por causa das subidas, mas por causa da VCI, a autoestrada que atravessa o Porto.

Durante décadas, a questão foi como fazer com que mais carros circulassem numa estrada já congestionada.

O Prof. José Miguel Lameiras colocou uma questão diferente:

E se, em vez de transportar mais carros, pudesse ligar as pessoas?

A resposta dele foi «cerzir»: remendar o que foi partido, aproveitando o que restou.

O projeto Cerzir está agora a tomar forma em várias áreas, com propostas de corredores verdes, ciclovias e transportes públicos exclusivos para restabelecer a ligação entre bairros isolados. E a sala reagiu. Levantaram-se mãos. Seguiram-se perguntas.

A viagem estava a transformar-se numa conversa.

 

Depois, a Joana Vasconcelos ofereceu-nos um barco.

Um que está fora de serviço e enferrujado.

A Trafaria Praia transportou passageiros através do Tejo até 2011.

Dois anos mais tarde, passou a ser o pavilhão de Portugal na Bienal de Veneza.

 

O seu casco estava revestido com azulejos portugueses azuis e brancos. Os tecidos e a luz transformavam o interior. Ao contrário de um pavilhão convencional, este podia mover-se.

Por trás da Trafaria Praia estavam os fabricantes de azulejos, os trabalhadores têxteis, os técnicos e as instituições necessárias para concretizar uma ideia improvável.

E o barco não foi exceção.

A «Árvore da Vida» ergue-se por quase quinze metros na capela, com mais de 140 000 folhas bordadas.

Do outro lado da capela, vê-se uma árvore. De perto, vê-se o trabalho de centenas de mãos.

 
 

«Um artista», disse Joana, «só existe enquanto a comunidade acreditar nele.»

 
 

As apresentações do primeiro dia terminaram. As conversas, porém, não. Continuaram durante o café, entre as sessões e nos grupos de trabalho. O que tinha começado no palco estava agora a espalhar-se pela sala.


O segundo dia começou com cogumelos.

Têm uma certa reputação de levar as pessoas a vários sítios. João Kopke tinha o destino ideal: o futuro.

Não são propriamente cogumelos, mas sim micélio — a rede quase invisível de filamentos fúngicos que se estende por baixo do solo da floresta, «uma espécie de Internet da floresta».

Em Mykor, no Alentejo, os resíduos de outras indústrias — palha, restos agrícolas e até lamas provenientes da produção de papel — transformam-se em alimento para o micélio. Este cresce através da mistura e une-a.

O que outras indústrias descartam transforma-se em isolamento para as estruturas que nos abrigam.

Kopke deu outro exemplo, desta vez de Braga. Um lago criado no Parque do Picoto tinha começado a atrair vida própria: anfíbios, insetos e outras espécies.

E depois apareceu o peixe.


O Mar Menor é a maior lagoa de água salgada da Europa, uma extensão azul e pouco profunda na costa mediterrânica de Espanha. Há várias gerações que as pessoas constroem as suas vidas em torno dela — pescando nas suas águas, estabelecendo-se nas suas margens, regressando a ela.

Isto não era a natureza noutro lugar qualquer. Era o meu lar.

E, no papel, estava protegida. Ramsar. Natura 2000. Proteções regionais, camada sobre camada.

Posteriormente, em 2019, milhares de peixes e crustáceos mortos foram levados pelas ondas até às suas margens.

As proteções legais continuavam todas em vigor. A lagoa viva estava, de qualquer forma, a desaparecer.

Teresa Vicente levantou uma questão difícil na sala:

Como é que algo pode ser protegido e, mesmo assim, ser deixado morrer?

A resposta dela implicava uma mudança radical de paradigma: conceder ao Mar Menor direitos jurídicos próprios.

Mas, para alterar a lei, era preciso, antes de mais, convencer as pessoas.

E a gente apareceu! 

Marcharam. Formaram correntes humanas. Alguns vestiam-se como as criaturas pelas quais lutavam: peixes, camarões, cavalos-marinhos, lagostas.

 

A iniciativa de cidadania precisava de 500 000 assinaturas. 639 286 pessoas assinaram.

Em 2022, o Mar Menor tornou-se o primeiro ecossistema da Europa a ser reconhecido com personalidade jurídica e direitos próprios.


Em algum momento, ao longo desses dois dias do « Time Machine », a questão que pairava na sala tinha mudado.

Os oradores tinham pedido a uma centena de pessoas que reconsiderassem o que parecia já decidido: uma auto-estrada podia unir, em vez de dividir. Um barco velho podia recomeçar. Os resíduos podiam tornar-se parte integrante de uma casa. Uma lagoa podia ter direitos próprios.

No final, a tendência das perguntas tinha-se invertido.

Já não se perguntava à sala : «O que acharam?»

Perguntaram : «E aqui?»

A sessão final tornou tudo mais concreto.

«O Porto que queremos em 2050» — o Porto que queremos em 2050 — começou com um mapa coletivo da cidade, à espera de ser preenchido. 

Dois dias de perguntas que nos levaram a refletir: o que poderia mudar no Porto e por onde começamos?

O que aprendemos a aceitar como inevitável? O que deve ser preservado? O que deve mudar? O que poderia começar agora?

Por todo o mapa, as cem pessoas que tinham passado dois dias a ouvir, a fazer perguntas e a debater começaram a apresentar propostas.

Trazer à superfície os rios escondidos do Porto. Plantar árvores de fruto para que os bairros as cuidem e colham os frutos. Conceder aos espaços verdes e aquáticos da cidade direitos jurídicos próprios.

E o mapa não ficou na sala. Foi concebido para viajar — até à Câmara Municipal do Porto e à Universidade do Porto —, levando essas propostas às pessoas com meios para as concretizar.


O « Time Machine » estava a chegar ao fim quando Ana Bacalhau subiu ao palco. Entre canções, ela associou letras conhecidas à viagem que acabara de começar.

O voo FTM 001 tinha iniciado a descida. Destino: 2026.

Lá fora, o Porto estava exatamente como o tínhamos deixado. 

O VCI continuava cheio de carros. O trânsito nas ruas não tinha avançado.

Mas num mapa exposto no Círculo do Porto estavam as respostas de uma centena de pessoas a uma pergunta diferente:

E se fosse possível?

Com os melhores cumprimentos,

A Equipa Futura


A « Time Machine » vai estar em Coimbra, no dia 9 de outubro. As inscrições estão abertas: junta-te a nós!


Amigos da Futura mencionados neste artigo:

José Miguel Lameiras:

https://urbinat.ces.uc.pt/people/jose-miguel-lameiras/ na Web

Joana Vasconcelos:

https://www.joanavasconcelos.com/en na Web

Teresa Vicente e Mar Menor

https://ilpmarmenor.org/ na Web

YouTube https://www.youtube.com/watch?v=blO5Gh4dOF0

Ana Bacalhau:

YouTube www.youtube.com/@AnaBacalhauOficial

Instagram instagram.com/anabacalhau/

Facebook facebook.com/AnaBacalhauOficial

João Kopke:

YouTube https://www.youtube.com/@joaokopke8918

Instagram @joaokopke

Tempos de mudança

https://transformative-times.com/ na Web

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Consulte os oradores e as atividades do evento « Time Machine » no Porto

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